Tempos de trânsito

No fim do século 20, comum era ver por Campo Maior um fluxo de passantes por nossas belas ruas de calçamento irregular. Dezenas de bicicletas transitavam nas estradas de piçarra vermelha. Por raro asfalto urbano, transportes circulavam nas avenidas da região dos carnaubais. Os pedestres tinham as sombras das casas nas calçadas como consolo de quem vivia a pé.Os ciclistas possuíam a cadência a seu favor. Carros e motos traziam-nos a modernidade dos grandes centros urbanos: velocidade, conforto e acidentes graves.

Hoje o campo ainda é rural, com planícies alagadas e latifúndios que agradam aos olhos dos futuros condomínios luxuosos da cidade pobre. Pedestres e máquinas dividem os espaços no tráfego das manhãs de segunda-feira engarrafada. Vez ou outra uma vaca, um cachorro, um bode circulam pelo centro comercial com a maior preguiça do mundo, zombando de nossa condição humana e racional.

Barato, ecológico e saudável. Assim foi a vida a pé da humanidade; vida que ninguém quer mais de volta. Os campomaiorenses já vivíamos com pressa de chegar a algum lugar. Mas fugíamos principalmente de um sol sanguíneo escaldante, diria o poeta Salgado Maranhão. Feliz do ser humano que inventou a roda, movido pela preguiça de andar! Em Campo Maior toda gente possuía ao menos uma bicicleta para circular pela vizinhança, levar o filho à escola e seguir para o trabalho.

Outros tempos…

No fim dos anos 90 as motos chegaram transformando o ritmo da cidade para sempre. Conforto e praticidade seriam o carro-chefe das motos. As concessionárias deixaram os comerciantes locais em apuros: a população preferia comprar uma moto a deixar as contas do comércio em dias. Em pouco tempo as ruas tornaram-se delas, das Hondas, Yamahas, Suzukis. Com uma moto nas mãos, adolescentes saíam à noite para apostar corridas e acostumar-se com a competitividade do mundo. Em noites de festa na cidade, jovens bêbados faziam ziguezague com as envenenadas como se aquela fosse a última festa de suas vidas.Na maioria das vezes era. Ao pedestre e ao ciclista que se tornaram motoqueiro faltou a educação no trânsito, educação que eles aprenderiam por meio de multas e apreensão de veículos pelos órgãos competentes.

Pela orla do Açude Grande, grandes motos fazem seus passeios no espaço reservado à caminhada dos pedestres. Motos nas calçadas, em frente de garagens, em alta velocidade… Vícios herdados dos ciclistas! Os pedestres não ficamos atrás.

Concorremos nos direitos de circular por onde e como quisermos. Na avenida Demerval Lobão, o lobo vive a solta nos passeios desavisados da “floresta” urbana local. Na Santo Antonio, é um milagre alguém respeitar ou conhecer a placa de limite de velocidade. A modernidade dos engarrafamentos já chegou na avenida José Paulino: carros, motos e gente disputam espaços privilegiados de sombra e estacionamentos no centro comercial de Campo Maior. Cuidado: quem trafega sem atenção pela Dirceu Arcoverde pode tombar no calçamento de pedra ou cair dentro das águas sujas do açude.

Trânsito atemporal

Compromissos no comércio ou pela prefeitura – nossas principais fontes de emprego – obrigam os cidadãos a aventurar-se pelo trânsito atemporal nas manhãs hebdomadárias desse município.

Asfalto existe, mas os buracos persistem em morar nas ruas da cidade. Semáforos há, mas há quem diga que eles atrasam a vida das pessoas de bem. Há perigo em cada esquina. O controle de tráfego por conta do poder público e as irregularidades de todos nós correm solto pelas ruas. Roubos de veículos são frequentes; motoristas desabilitados uma constante. Blitz são tão raras quanto o uso de capacetes, cinto de segurança ou cidadão que não tenha perdido um conhecido no trânsito vermelho. O pedestre que se preze ao andar pelas ruas e calçadas na insegurança pública que é o asfalto quente das cidades brasileiras.

E assim chegamos ao século 21 no trânsito de Campo Maior e de muitas cidades verde-amarelas: livre para corridas, perigo e acidentes; sem sinalização e urbanidade necessárias; sinal vermelho para a imprudência e imperícia de máquinas e criaturas humanas.

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Antonio José Melo dos Santos
Cronista Local

Caro leitor!

A crônica que você acabou de ler é de total responsabilidade do autor.

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