ADEUS, AUCAM! “Campo Maior terra do já teve”

A histórica sede universitária foi derrubada e quase nenhum universitário da cidade ficou chocado com isso

            Antes, aqui tudo foi; hoje nada é!

A antiga sede da Associação Universitária de Campo Maior – AUCAM – completaria 34 anos em 2015. Porém isso não acontecerá mais. O destino histórico do prédio, outrora palco de tantas lutas e debates engajados, foi reduzido a escombros e poeira: hoje a extinta sede universitária é só mais um triste capítulo da “terra do já teve”.

Por telefone, a assessoria de imprensa da Prefeitura de Campo Maior informou que no terreno da antiga sede da AUCAM será erguida uma estrutura poliesportiva com quadra de esportes, pista de skate, futebol de areia, anfiteatro e outros espaços desportivos e culturais voltados para a população. A assessoria da Prefeitura não soube informar se haveria uma nova sede da AUCAM naquele local. O ex-presidente da AUCAM, Marcos Roberto Monte (biênio 2007/2008) informou que o histórico prédio da Associação foi demolido porque sua estrutura estava muito deteriorada. Esta crônica jornalística procurou a Prefeitura de Campo Maior (outubro de 2014) e não recebeu nenhum laudo técnico atestando que o prédio da Associação Universitária estava comprometido para justificar a demolição total. Será que a o poder público desta cidade ainda trabalha com base no olhômetro?

DETRUICAO DA SEDE

Para estes cronistas, ex-membros da Associação Universitária no biênio citado, o prédio deveria ser mantido pelo poder público – que fosse criado outro edifício para a AUCAM, mas que se restaurasse a antiga construção como lembrança viva desta cidade histórica que não preserva sua história recente. Base legal para isso existe, o que falta é leitura aos políticos e correligionários. Constitui o patrimônio histórico e artístico nacional o conjunto dos bens móveis e imóveis existentes no país e cuja conservação seja de interesse público, quer por sua vinculação a fatos memoráveis da história do Brasil, quer por seu excepcional valor arqueológico ou etnográfico, bibliográfico ou artístico” (Decreto-Lei nº 25/1937 – ainda em vigor).

AUCAM ABANDONADA PELO ESTUDANTES E PODER PUBLICO

Sua história na História

Fundada em 1981, a AUCAM foi referência no Estado quanto ao movimento estudantil regional. Mais antiga que a própria UNE piauiense, várias personalidades deste município e circunvizinhança passaram pela AUCAM. Por muito tempo, a principal reivindicação dos estudantes era ter um espaço de lazer cultural e conseguir transporte coletivo para encaminhar os estudantes a Teresina. Àquela época, Raimundo Pereira de Sousa foi o universitário que aglutinou os estudantes para unirem-se e reivindicar junto ao poder público os seus direitos estudantis.

DETRUICAO DA SEDE - O BAR PERMANECEU INTACTO

Ainda no início dos anos de 1980, depois de perambular por salas da biblioteca da Prefeitura, os universitários convenceram o então prefeito Cezar Melo de que necessitavam de um espaço para sediar a Associação Universitária. Assim, na orla do Açude Grande desta pequena cidade, num fim de semana de verão agreste, alguns universitários roçaram o mato alto, limparam o terreno baldio e levantaram uma barraca de palha de carnaúba para lutar pelos seus direitos, discutir sobre a opressão militar da época e reivindicar um ônibus para os estudantes, é claro! A sede foi erguida pelo esforço conjunto de pedreiros sem diploma, universitários sem preguiça, pais e amigos de estudantes sem medo… Atualmente, as três décadas de movimento estudantil foram rapidamente destroçadas pelo trator da ignorância política, pela hipocrisia local e pelo individualismo universitário.

 

A Bandeira Estudantil e as Bandeiras Partidárias

Talvez o grande erro da AUCAM tenha sido a restrição constante a duas vertentes: (1) a garantia de um transporte para os universitários se deslocaram à capital e (2) a ação parasita de alguns de seus membros que utilizaram a Associação como trampolim político. Se hoje grande parte dos universitários locais são apenas alunos – seres preocupados só com notas, no passado a AUCAM reunia estudantes interessados com melhores condições de vida para todos. Hoje a AUCAM é escombro; amanhã, história. Mas o uso da AUCAM para favorecer/apoiar a política partidária local foi uma realidade recalcitrante na trajetória da Associação. E quando os associados não conseguiam mais distinguir a bandeira estudantil da política partidária, isso porque algumas diretorias da sede vendiam os ideais em troca de interesses escrotos, muitos universitários desacreditavam do movimento estudantil e abandonavam a Associação para não serem aliciados por seus pares.

Quando a Associação Universitária não se submetia ao poder político local, os prefeitos lançavam toda sua retórica de bom-moço contra os estudantes. Temos dois exemplos bem recentes. As últimas gestões da AUCAM reivindicaram do ex-prefeito Joãozinho Félix, ex-membro da AUCAM, a doação do terreno da sede: o ex-prefeito até assinou documento simbólico em assembleia de estudantes (biênio 2007/2008), mas terminou seu mandato e a “doação” ficou só no simbólico mesmo. A contribuição que o atual prefeito Paulo Martins deu para a história da AUCAM foi a de destruir o prédio da sede quando deveria tê-lo preservado, mas não o fez porque persiste nas cabeças miúdas locais a ideia de que para se fazer o novo, deve-se destruir o velho.

 

Faz medo ter coragem…

Sabe por que até hoje nenhum prefeito, vereador ou deputado teve peito e coragem para doar o terreno da AUCAM aos estudantes? Porque universitários organizados nunca são bem vistos por setores políticos conservadores. A autonomia do pensamento engajado não interessa a certos gestores que preferem universitários doutrinados como curral eleitoral a uma massa crítica em ebulição, consciente de seus direitos violados. Detalhe: o prédio da AUCAM foi derrubado, mas o bar que funciona ao lado da sede, este sim, ficou lá porque é preferível ver bêbados espalhados pela cidade a estudantes mobilizados pela causa pública.

Adeus, AUCAM (1981-2014)! Sua destruição é um desrespeito histórico a todos aqueles que levantaram a bandeira estudantil para reivindicar condições de progresso a esta cidade entorpecida. Infelizmente as futuras gerações serão de universitários cada vez mais individualistas e tecnocratas. A morte da AUCAM não se deu com sua demolição (outubro/14), mas se deu cada vez que um presidente oportunista ou universitário mesquinho aproveitou-se da sede para matar sua sede de poder. Até os documentos da Associação perderam-se, desapareceram ou foram roubados por membros que passaram por lá. Se a intenção é apagar a AUCAM da história local, muitos de nós contribuímos para isso.

Deixamos o sonho morrer. Se o poder público acabou de levar a AUCAM ao buraco, fomos nós que cavamos sua cova e deixamos o corpo abandonado do movimento estudantil descansar nas ruínas do presente.

____________________

 


Antonio José Melo dos Santos

Ex-associado da AUCAM

Cronista Regional

Professor de Português da rede pública de ensino

 

 

Diogo Augusto Frota de Carvalho

Ex-associado da AUCAM

Mestrando em Biologia pela UFPI

Professor de Biologia da rede privada de ensino

Leave a reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *